Seguem as 2 primeiras páginas do conto CONFISSÃO À BEIRA DO LAGO
Resolvi abordar a homossexualidade de modo a fugir dos maniqueísmos que muitas obras de ficção caem ao retratar o assunto.
CONFISSÃO À BEIRA DO LAGO
pag. 1 e 2
Sentados em silêncio à beira do lago Pelegrino, dois amigos parecem absortos em pensamentos que rumam em direções opostas. Todavia, não desconfiam que o diálogo que lhes apresento agora, torná-los-ão seres humanos capazes de repensar a sua posição no mundo, vendo no modo como se relacionam com o outro, as sutilezas do amor em suas diferente nuances.
- Quero lhe dizer uma coisa – disse Bernardo. O coração a saltar-lhe à boca, olhos fitos no chão, o peito arfava.
As palavras lhe faltavam, impossibilitando-o de concatenar as idéias. Havia ensaiado aquele momento não uma, mas centenas de vezes. E agora a coragem resolvera abandoná-lo. O medo o assaltara, como se pressentisse a rejeição, o escárnio, a frieza revestida de incompreensão.
- O que é? – indagou Kaike, alheio ao visível nervosismo do amigo. Certamente, confessaria estar de caso com alguma das garotas que sempre o assediavam nas festinhas da faculdade. Bernardo sempre mantivera distância deste assédio, resistia com galhardia às investidas das meninas que por ele se interessavam. Bebia a sua cerveja, conversava com os colegas, dançava timidamente, observava com atenção o barulhento jogo de truco dos amigos. E sempre que Kaike lhe trazia o recado de uma moçoila, desconversava, dizendo que ainda tinha esperanças de reatar o namoro com Mariana. Envolver-se com alguém poderia dificultar a situação, já que tinham amigos em comum e não tardaria até a ex-namorada saber que não respeitara o recente fim do relacionamento. Isso soara convincente aos ouvidos de Kaike, que sabia que o amigo tornara-se um romântico incorrigível, avesso à promiscuidade dos jovens de sua idade e um eterno apaixonado por Mariana, amiga de infância de ambos.
- Se não contei antes, foi por medo. – iniciou Bernardo, a respiração ofegante. – Não por onde começar.
- Faça o seguinte... – redargüiu Kaike, estranhando a tensão na voz de Bernardo – comece pelo início. Não se preocupe, acho que sei o que tanto o preocupa. Ainda assim, prefiro que desabafe e tire o peso que carrega sobre as costas ou que, pelo menos, queira compartilhá-lo comigo.
O universo conspira ao meu favor – pensou Bernardo, o coração tomado pela esperança. Sensação que o deixou mais leve, pois pressupunha que o amigo sabia da angústia que lhe invadia a alma e não lhe tinha ojeriza, não o julgava ou sustentava qualquer tipo de preconceito. Kaike, o amigo que sempre o defendera de seus desafetos, companhia inseparável que com ele dividira o fruto das descobertas da puberdade, o primeiro amor, as inseguranças, os medos, as alegrias e frustrações de toda uma vida. Confidenciavam segredos íntimos que estreitavam as relações de confiança, respeito e afeto. A amizade seria incondicional se Bernardo não omitisse o fato de que estava perdidamente apaixonado pelo amigo. Kaike tornara-se a razão de sua insônia, seu objeto de desejo e o motivo pelo qual havia terminado o namoro de dois anos e sete meses com Mariana de Oliveira. Martelava em sua memória o dia em que colocara um ponto final em sua relação com Mari. Ela chorava, pedindo a ele que lhe dissesse o que havia feito, prometendo que se policiaria em relação ao ciúme que, às vezes, ultrapassava o limite do aceitável e implorando para que lhe desse uma segunda chance. Pensou que qualquer homem se sentiria orgulhoso em ostentar aquele esplendor de mulher ao seu lado, com os seus lindos olhos azuis, os cabelos que reluziam como ouro de tão louros, a boca vermelha de lábios carnudos, o corpo perfeito de mulher que sabe o poder que exerce sobre os homens. Mas apesar da atração que lhe despertava, e no sexo entendiam-se bem, não conseguira apaixonar-se por ela, que sempre fora tão doce, companheira, amiga. Pois era assim que sempre a vira, como a sua melhor amiga. Gostavam das mesmas músicas, assistiam aos mesmos filmes, liam os mesmos livros, passavam horas conversando sobre os mais variados assuntos, mas devotavam um ao outro sentimentos de nuances diferentes.
Mariana o amava com sofreguidão, fazia-lhe todas as vontades e exercitava o dom da paciência suportando o seu humor bipolar. Bernardo sempre parecia insatisfeito com alguma coisa. Ele a magoava sem razão aparente, logo se arrependia e lhe pedia perdão. E a culpava pelo maior infortúnio de sua vida: o fato de não poder gritar ao mundo a louca paixão que nutria pelo seu melhor amigo, Kaike. O sentimento corroía-lhe a alma, escravizava os seus sentidos, manifestava-se através de seus poros, invadia-o a ponto de mantê-lo resistente a qualquer remota possibilidade de amar Mariana ou quem quer que fosse. Amava Kaike resignadamente, pouco fazendo para se libertar deste amor não correspondido. Colocara-o num pedestal. Era um amor impossível, inalcançável, platônico, sagrado e profano. Os versos camonianos diriam que se tratava de uma dor que desatinava sem doer, mas causara-lhe feridas, mágoa e a noção exata daquilo a que chamavam infelicidade. Esse sentimento que lhe roubava o tempo que precisava dedicar aos estudos, à família e à diversão. Que lhe tirava a concentração, afetava-lhe o humor e, por vezes, a vontade de viver.
** CONTINUA NA PRÓXIMA POSTAGEM.
2 comentários:
Anônimo
disse...
Oi td e vc? Isso não vale....Continua na próxima postagem.... Mas não demore tá? Bjo =)
oie! espero q vc poste a continuação deste conto, como vc mesmo disse, viu? como já lhe disse anteriormente: não deixe acontecer como o 'idas e vindas' (gostei mto do começo e vc não terminou-o :p ). obs: fuja de polêmicas! (neste conto, vc já começou com uma bem gde! rss) bjs, inteh!
O amor pela palavra escrita, o hábito da leitura e a intimidade com a Língua Portuguesa, fizeram com que o projeto do Blog deixasse o campo das idéias e se tornasse realidade. É um espaço para dar forma ao pensamento, discutir sobre o cenário literário e comentar sobre variedades. Escritor, Blogueiro, Pedagogo, Professor de Lingua Portuguesa e Inglês. Pretendo me especializar em Literatura Brasileira.
Sejam bem - vindos! Participem comentando as postagens e dialogando comigo sobre as temáticas propostas.
2 comentários:
Oi td e vc?
Isso não vale....Continua na próxima postagem....
Mas não demore tá?
Bjo
=)
oie!
espero q vc poste a continuação deste conto, como vc mesmo disse, viu?
como já lhe disse anteriormente: não deixe acontecer como o 'idas e vindas' (gostei mto do começo e vc não terminou-o :p ).
obs: fuja de polêmicas! (neste conto, vc já começou com uma bem gde! rss)
bjs, inteh!
Postar um comentário